Mar Grande
Porta de entrada do município, território de pescadores, travessias, veraneio, fé e encontros. Aqui, a cidade cresceu de frente para as águas.
A comunidade que recebe Vera Cruz pelo mar
Mar Grande é a sede administrativa de Vera Cruz e uma das paisagens mais reconhecidas da Ilha de Itaparica. O terminal, a praia, o comércio, a igreja e a praça formam um centro onde a vida urbana continua profundamente ligada às águas.
Antes de concentrar serviços e circulação, Mar Grande era lembrado principalmente como terra de pescadores e lugar de veraneio. Saveiros, canoas e, mais tarde, lanchas aproximaram a comunidade de Salvador e ajudaram a transformar a orla em espaço de trabalho, lazer, fé e encontro.
Uma história conduzida por barcos, veranistas e trabalhadores do mar
A formação de Mar Grande está ligada à pesca, às praias e às travessias pela Baía de Todos-os-Santos.
A dissertação de Silvano Sulzart Oliveira Costa descreve Mar Grande como lugar de veraneio, sede de Vera Cruz e ponto de chegada das lanchas. Ao recordar a infância, o autor apresenta uma comunidade marcada pelos pescadores, pelos arrecifes, pelos frutos colhidos perto das praias e pela intensa movimentação do verão.
Em diálogo com essa memória, a literatura de Jorge Amado retrata estradas que eram praias, casas simples, vendedores de peixe, candomblés respeitados, barcos que saíam pela manhã e veranistas que chegavam pelo mar. Essa imagem não resume toda a história, mas ajuda a compreender a forte identidade marítima da comunidade.
Com a emancipação de Vera Cruz, em 1962, Mar Grande consolidou-se como sede do novo município. A administração pública, o transporte, o comércio e os serviços ampliaram sua centralidade sem apagar a presença cotidiana da pesca e da travessia.
Batizados e casamentos em Itaparica
Moradores deslocavam-se para a Paróquia do Santíssimo Sacramento.
Chegada da imagem do Sagrado Coração
A imagem veio do Rio de Janeiro por navio e seguiu para Mar Grande em saveiro.
Início das obras da igreja
Pedreiros e jovens da ilha participaram da construção com materiais trazidos de Salvador.
Mar Grande torna-se sede
A emancipação política de Vera Cruz fortaleceu seu papel administrativo.
Inauguração da praça
A Praça Anísio Nelson de Brito foi construída diante da igreja.
Mar Grande pelas páginas de uma revista que virou memória
A revista comemorativa Vera Cruz - 37 anos registrou histórias de transporte, veraneio, cotidiano e personagens ligados a Mar Grande. Nesta página, as matérias foram reconstruídas em linguagem atual, sem reproduzir os recortes do periódico como texto corrido.
Saveiros marcaram época
Antes do ferryboat e da estrutura atual de transporte, a ligação entre Salvador e Mar Grande dependia fortemente das embarcações à vela.
A reportagem lembra saveiros ancorados na rampa do antigo Mercado Modelo, utilizados para transportar passageiros, alimentos, tecidos, querosene e outras mercadorias. Mar Grande possuía uma frota lembrada por nomes como Flor de Liz, Luz do Mar, Santo Antônio, Estrela do Mar e São Bento.
Mestres experientes conduziam as viagens pela Baía de Todos-os-Santos, enfrentando diferentes condições de vento e maré. A implantação do ferryboat reduziu a utilidade desses saveiros, encerrando gradualmente um modo de transporte que marcou a memória da comunidade.
“200 réis para saltar carregado”
Segundo a revista, até meados de 1939 muitos passageiros que chegavam a Mar Grande desembarcavam nos ombros ou braços de tripulantes e carregadores, evitando entrar na água. O serviço custava 200 réis por pessoa e fazia parte da rotina de chegada dos saveiros.
O relato ajuda a visualizar uma orla anterior aos atuais atracadouros, quando desembarcar também dependia da maré, das ondas e da habilidade de quem conhecia aquele trecho da costa.
A antiga Ponte do Duro
A mesma edição registra a construção de uma ponte na Praia do Duro em 1939. A obra é associada a Edmundo Guimarães, veranista de Mar Grande, e teria surgido para facilitar o embarque e o desembarque da população.
A reportagem conta que uma taxa de 200 réis era cobrada aos passageiros e destinada à conservação da estrutura. Com mudanças nas linhas de transporte, a ponte perdeu movimento e acabou entrando em decadência.
A Ponte do Duro é um registro diferente da atual Praça Anísio Nelson de Brito, conhecida popularmente como Praça do Duro.A felicidade mora em Mar Grande
Em uma crônica afetiva, José Augusto Bebert apresenta Mar Grande pelo olhar de quem escolheu a comunidade para viver e conviver. O texto destaca a proximidade com Salvador, as praias, os encontros entre moradores, as caminhadas entre localidades e a familiaridade criada no cotidiano.
Mais do que descrever pontos geográficos, o autor registra uma atmosfera: vizinhos que se conhecem, rodas de conversa, comidas preparadas nos bares, deslocamentos entre Gamboa, Duro, Penha e Cacha-Pregos e a sensação de que o território inteiro podia ser vivido como uma grande rede de amizades.
O badalado veraneio
O verão transformava Mar Grande em ponto de encontro entre moradores e famílias vindas de Salvador.
A revista descreve um período em que o “veraneio” era associado especialmente aos meses entre dezembro e março. Casas eram ocupadas por temporadas, praias ficavam mais movimentadas e antigas famílias retornavam ano após ano, fortalecendo uma cultura de férias que ajudou a projetar Mar Grande como um dos lugares mais conhecidos da ilha.
O registro também mostra como turismo e vida comunitária se misturavam: praias, comércio, transporte marítimo e encontros sociais ganhavam outro ritmo durante a estação mais movimentada.
Mar Grande lembrada por José Joaquim de Almeida Netto
Em outro texto da revista, José Joaquim de Almeida Netto reconstrói lembranças das décadas de 1940 e 1950. Ele recorda temporadas de verão, casas na Ilhota, no Jaburu e no Duro, banhos de mar, pesca nos arrecifes, futebol na praia e uma rotina em que a chegada de lanchas e saveiros fazia parte do espetáculo cotidiano.
Suas reminiscências também registram uma Mar Grande com infraestrutura muito mais simples: casas modestas, ausência de água encanada em parte do período e relações de vizinhança que davam ao veraneio um caráter bastante diferente do turismo atual.
O valor desse relato está justamente no ponto de vista. É a memória de um personagem sobre a comunidade que conheceu, útil para comparar paisagem, costumes e formas de sociabilidade entre diferentes gerações.
Uma denominação nascida da paisagem e da força das águas
As fontes consultadas não registram, de forma conclusiva, o momento exato em que o nome Mar Grande foi escolhido.
A interpretação tradicional associa a denominação à ampla extensão de água diante da comunidade e à percepção de um mar mais aberto, sujeito a ventos, ondas e temporais. Jorge Amado chegou a destacar a força dos temporais dessa zona.
Por isso, a página apresenta essa explicação como uma leitura histórica e popular, e não como uma etimologia documental definitivamente comprovada. O nome, de todo modo, combina com a experiência de um lugar cuja vida sempre foi orientada pelo movimento das águas.
Igreja do Sagrado Coração de Jesus
A matriz tornou-se referência religiosa, arquitetônica e visual para quem chega a Mar Grande pelo mar.
Uma igreja erguida com doações e trabalho da ilha
As obras começaram em 1943, impulsionadas pelo Padre Manoel Santos Lemos, por doações de veranistas e fazendeiros e pela participação de jovens e pedreiros da Ilha de Itaparica.
Parte dos materiais de construção veio de Salvador em saveiros, mostrando como a própria obra nasceu atravessando a Baía de Todos-os-Santos.
Com a construção da matriz, Mar Grande passou a ter sua própria referência paroquial. Batizados, casamentos, missas e celebrações deixaram de depender exclusivamente do deslocamento até Itaparica.
A imagem chegou pelo mar
Produzida no Rio de Janeiro, a imagem do Sagrado Coração de Jesus chegou à Bahia em navio e foi levada a Mar Grande em saveiro.
Procissão náutica
Pescadores acompanharam a chegada da imagem pela baía, transformando o percurso em celebração sobre as águas.
Influência neogótica
Torres, arcos verticais, rosáceas e a fachada simétrica aproximam a igreja do repertório arquitetônico neogótico.
Praça Anísio Nelson de Brito
Construída em 1967, a praça nasceu diante da Igreja do Sagrado Coração de Jesus e tornou-se um dos principais espaços públicos de Mar Grande.
Ela recebeu o nome de Anísio Nelson de Brito, pai de Almiro Antunes de Brito, primeiro prefeito de Vera Cruz. Segundo o texto enviado para o projeto, o terreno da praça foi doado para a comunidade.
No local existia um chafariz que fornecia água potável à população do Duro. Com a implantação da rede de água encanada, o equipamento perdeu sua função e acabou desativado.
Ao longo das décadas, a praça passou por quatro grandes reformas, modificando sua estrutura original. Uma pequena placa fixada na parede da igreja preserva a referência à inauguração de 1967.
O mar não é cenário. É caminho, trabalho e calendário.
Em Mar Grande, a água participa da organização do tempo e da vida.
Pescadores leem ventos, marés e correntes; passageiros calculam a hora das lanchas; comerciantes acompanham a chegada dos visitantes; estudantes e trabalhadores cruzam diariamente a baía.
A dissertação Docência nas Águas mostra que a travessia também funciona como espaço de conversa, planejamento, descanso, aprendizado e construção de vínculos.
Na memória mais antiga, os saveiros penetravam entre os arrecifes, transportando pessoas e mercadorias. Com o tempo, as lanchas consolidaram Mar Grande como uma das principais conexões marítimas entre a ilha e Salvador.
“ O mar ensina a esperar a maré, respeitar o vento e compreender que cada travessia tem seu próprio tempo.
Lendas, crenças e memórias das águas
Os presentes de Iemanjá
Nas pedras das praias, crianças encontravam flores, perfumes, bonecas, comidas e outros objetos deixados em oferendas. Esses encontros faziam parte da convivência entre a infância e a religiosidade das águas.
Memória registrada por Silvano Sulzart Oliveira Costa.A oferenda deixada pela sereia
Em um causo de infância, um grupo encontrou doces e bolo entre as Pedras do Jaburu. Entre medo e encantamento, as crianças imaginaram que uma sereia havia deixado o presente.
Narrativa de infância, apresentada como memória oral.O mar que avisa
Pescadores e moradores reconhecem sinais de mudança do tempo pela direção do vento, pelo movimento das ondas e pela aparência das nuvens. Para quem vive das águas, previsão e tradição caminham juntas.
Saber tradicional ligado à experiência marítima.Fatos que ajudam a entender a comunidade
Mar Grande concentra a administração e parte importante dos serviços de Vera Cruz.
O terminal marítimo transformou a localidade em ponto de circulação entre ilha e continente.
Durante décadas, famílias de Salvador chegaram para passar temporadas junto às praias.
Barcos, canoas, saveiros e recifes aparecem repetidamente nas memórias locais.
A chegada da imagem do Sagrado Coração foi celebrada em procissão náutica.
Reformas sucessivas mudaram o desenho original da Praça Anísio Nelson de Brito.
A festa do Sagrado Coração de Jesus ocorre no calendário católico após Corpus Christi.
Mar Grande aparece em narrativas literárias ligadas à pesca, ao veraneio e à cultura das águas.
Um mosaico de mar, fé e movimento
Clique nas fotografias para ampliar.
Vozes de Mar Grande
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Memórias compartilhadas
Fontes da página
O conteúdo combina o texto histórico enviado ao projeto, registros fotográficos, documentos oficiais e a dissertação Docência nas Águas: diversidade cultural, maritimidade e travessias na Ilha de Itaparica, de Silvano Sulzart Oliveira Costa.
- Publicação de Silvano Sulzart sobre a Igreja do Sagrado Coração de Jesus.
- Dissertação de mestrado de Silvano Sulzart Oliveira Costa, UNEB, 2015.
- Histórico municipal e registros administrativos de Vera Cruz.
- Memória oral sobre Mar Grande, Praia do Jaburu, Ponte do Duro e cultura das águas.
- Revista comemorativa Vera Cruz - 37 anos, especialmente as páginas 07, 08, 10, 16 e 19.
A explicação do nome Mar Grande é apresentada como interpretação tradicional, pois não foi localizado um documento conclusivo sobre a criação do topônimo.