Vera Cruz: uma história entre a fé, o mar e a memória
Muito antes de se tornar município, Vera Cruz já carregava um nome forte, uma herança religiosa,
marcas da colonização, tradições da Ilha de Itaparica e uma trajetória que atravessa séculos até a emancipação de 1962.
1561 fundação da Igreja do Nosso Senhor da Vera Cruz
1962 emancipação política do município
Começo da história
De onde vem o nome Vera Cruz?
Antes de virar nome de cidade, Vera Cruz já era um nome cheio de sentido religioso e histórico.
No Brasil existem quatro cidades chamadas Vera Cruz: uma no Rio Grande do Sul, outra em São Paulo,
uma no Rio Grande do Norte e Vera Cruz, na Bahia. A cidade baiana é a única banhada pelo mar e a única
ligada diretamente ao nome do seu padroeiro, Nosso Senhor da Vera Cruz.
O nome “Vera Cruz” vem do latim e significa “a verdadeira cruz”. Durante o período das navegações,
muitos lugares receberam nomes ligados à fé cristã. Em 1500, o próprio Brasil chegou a ser chamado de
Ilha de Vera Cruz.
É um nome que mistura devoção, memória e a antiga presença portuguesa no território brasileiro.
Vera Crux
a verdadeira cruz
Linha do tempo
A história de Vera Cruz em etapas
Abra cada marco e viaje por séculos de acontecimentos que ajudaram a formar o município.
1500 · O Brasil recebe o nome Ilha de Vera Cruz
O nome expressava a religiosidade dos navegadores portugueses e mostra como Vera Cruz já era um símbolo forte desde o início da colonização.
1509 · A presença portuguesa se consolida na Ilha de Itaparica
A história da ilha passa pelos povos Tupinambás e pela chegada dos portugueses, ligados ao contexto de ocupação e formação do território baiano.
1560 · Fundação do povoado com a invocação do Senhor da Vera Cruz
Luís da Grã fundou o povoado na Ilha de Itaparica com a invocação do Senhor da Vera Cruz. Foi a segunda vez que o nome Vera Cruz apareceu oficialmente no Brasil.
1561 · Fundação da Igreja do Nosso Senhor da Vera Cruz
A igreja foi fundada por D. Pedro Leitão, segundo bispo do Brasil. Segundo a tradição, ele chegou ao local carregado pelos indígenas em uma rede.
1561 · Primeira missa com 70 casamentos
A primeira missa realizada na igreja teria celebrado setenta casamentos. Foi também uma das primeiras grandes festas entre portugueses e indígenas na ilha.
1563 · Criação da primeira freguesia/paróquia da Ilha de Itaparica
A antiga Freguesia de Vera Cruz tornou-se um ponto central da ilha. Na época, freguesia não era apenas igreja: também reunia casas, comércio, ruas e serviços.
Século XVI e XVII · Transformações e desafios
A ilha viveu disputas, mudanças econômicas e conflitos ligados ao período colonial, além da presença portuguesa, da catequese e do aproveitamento de seus recursos naturais.
1563 em diante · A peste das bexigas enfraquece a freguesia
A epidemia atingiu nativos e colonos. Com o tempo, a antiga freguesia perdeu centralidade e o antigo povoado foi sendo abandonado.
1831 · Fundação da povoação do Santíssimo Sacramento de Itaparica
Nesse período, a antiga Freguesia de Vera Cruz já estava abandonada, e novas centralidades surgiam na ilha.
1890 · A Vila de Itaparica torna-se cidade
Itaparica foi elevada à categoria de cidade. Seu território abrangia a Ilha de Itaparica, a Ilha de Matarandiba e áreas que hoje pertencem também a Salinas da Margarida.
1962 · Nascimento do município de Vera Cruz
O território da cidade de Itaparica foi desmembrado em três municípios: Itaparica, Vera Cruz e Salinas da Margarida. O nome Vera Cruz reapareceu como homenagem à antiga freguesia, à primeira igreja da ilha e ao padroeiro.
Registro histórico · Revista Vera Cruz, 37 anos
Mar Grande: até 1920, um pequeno aglomerado
Um registro antigo descreve a transformação de Mar Grande, a chegada do veraneio e as dificuldades do cotidiano antes da eletricidade e da água encanada.
Memória impressa
Reportagem de época“Até 1920 era pouco habitado”
Até os anos da década de 1920, o aglomerado de todo o Mar Grande era pouco habitado. Depois veio crescendo lentamente, cercado por cercas paliçadas, tapume feito com estacas fincadas na terra, servindo também de obstáculo para a defesa militar.
Começou a mudar sua fisionomia, graças ao desenvolvimento contínuo, passando talvez a ser a mais procurada estação de veraneio de todo o estado da Bahia, apesar de naquela época não haver luz elétrica e água encanada. A iluminação das casas e lampiões que haviam era feita a querosene, e a água transportada em barris nos lombos dos animais, que traziam o precioso líquido principalmente das fontes do Tereré e São Jorge.
Apesar das dificuldades, Mar Grande continuava a ser o local de grande preferência dos baianos, em razão da grande beleza natural que a tornava bucólica e paradisíaca. Outros pontos também mais procurados pelos veranistas, que preferiam mais a privacidade, eram, além da Ilhota e Gamboa, a Barra do Gil, Conceição, Aratuba, Cacha Pregos e Jiribatuba.
O povoado de Berlinque passou a ser mais frequentado e conhecido nacionalmente, depois da divulgação da Ponta da Praia de My Friend, transformada em colônia de nudismo, tendo atraído visitantes de várias partes do país. A fase passou. Hoje Berlinque se constitui em um dos pontos mais disputados pelos veranistas, favorecido sobretudo pela tranquilidade.
Nota de leitura: o texto acima reproduz o conteúdo do registro antigo, com a junção de palavras que estavam separadas pela quebra de página e pequenos ajustes de pontuação para facilitar a leitura na tela.
Ver o registro original da revista
As imagens ficam preservadas como fonte histórica, sem substituir a versão digital da reportagem.
Primeira parte do registro.Continuação da reportagem e fotografias históricas.
Fonte histórica: revista comemorativa Vera Cruz, 37 anos. O registro é apresentado como documento de época. A manchete “Até 1920 era pouco habitado” refere-se ao aglomerado de Mar Grande, conforme o próprio texto da reportagem.
Vida marítima · transporte e memória
Saveiros: quando o mar era a estrada
Antes do ferryboat e da expansão das ligações por terra, embarcações a vela faziam parte da rotina de quem precisava viajar, trabalhar, comerciar ou levar mercadorias entre Salvador e diferentes pontos de Vera Cruz.
Memória das águas
Registro históricoEmbarcações que ligavam a ilha a Salvador
Os saveiros e as embarcações que utilizavam a rampa do mercado nas travessias ligadas a Vera Cruz.
O mar como caminho
Passageiros, mantimentos e comércio cruzavam a baía
O transporte entre Salvador e localidades como Duro, Jaburu, Ilhota, Gamboa, Penha, Barra do Gil, Serrão, Coroa, Conceição e Barra Grande dependia fortemente das embarcações. Com o tempo, os saveiros ganharam espaço nessa circulação e passaram a marcar a paisagem marítima da região.
Os saveiros de vela ficavam ancorados junto à rampa do antigo Mercado Modelo. A saída podia acontecer entre 13h30 e 14h, aproveitando a maré de enchente, enquanto outras embarcações partiam do cais Cairu por volta das 15 horas. Horário, vento e maré faziam parte da própria viagem.
Além dos passageiros, essas embarcações carregavam sacos e caixas com gêneros alimentícios, tecidos e outros materiais destinados ao comércio de Mar Grande. A reportagem também lembra o transporte de querosene, usado na iluminação das casas quando ainda não havia energia elétrica, e de móveis dos veranistas que chegavam à ilha.
Nomes que ficaram na memória
Os saveiros também tinham identidade
Cada nome carregava uma pequena história e ajudava os moradores a reconhecer quem vinha chegando pelo mar.
Flor de LizLuz do MarSanto AntônioMimosoEstrela do MarSão BentoAmigo da VerdadeVelozLuz do DiaColonialNão se ImporteBanana
Um dos registros de saveiro preservados pela revista comemorativa.O fim de uma época
Quando o ferryboat mudou a travessia
No fim da tarde, segundo a reportagem, a aproximação dos saveiros com suas velas brancas formava uma paisagem marcante nas imediações dos bancos de areia. Era uma cena cotidiana de um tempo em que chegar e partir significava observar o vento e esperar a maré.
Com a implantação do ferryboat, os saveiros perderam grande parte de sua utilidade como transporte regular. Muitos foram vendidos ou transformados. A revista registra que o Flor de Liz permaneceu como lembrança dessa tradição.
Durante décadas, o mar não era apenas paisagem. Era caminho, trabalho, abastecimento e ligação entre comunidades.
Ver o registro original da revista
As páginas digitalizadas ficam preservadas como fonte histórica da matéria.
Reportagem “Saveiros marcaram época”.Continuação do registro e referência ao ferryboat.
Fonte histórica: revista comemorativa Vera Cruz, 37 anos, reportagem “Saveiros marcaram época” e sua continuação. O conteúdo desta seção foi reorganizado para leitura digital, preservando as informações apresentadas no registro de época.
Uma história completa
O que faz Vera Cruz ser Vera Cruz?
A identidade do município foi construída por diferentes povos, crenças, espaços e acontecimentos.
Povos originários
Antes da ocupação portuguesa, a Ilha de Itaparica já era marcada pela presença dos povos Tupinambás, fundamentais na formação da memória local.
Fé e catequese
A fundação do povoado, da igreja e da freguesia mostra como a religião católica teve forte influência na formação histórica do território.
Mar e localização
Vera Cruz é a única das cidades brasileiras com esse nome que é banhada pelo mar, característica que define sua paisagem e sua identidade.
Memória colonial
Ruínas, igrejas antigas, engenhos, caminhos e antigas freguesias ajudam a contar a presença portuguesa e o desenvolvimento da Ilha de Itaparica.
Emancipação política
A criação do município em 31 de julho de 1962 marcou uma nova fase da história, agora com autonomia política e nova organização territorial.
Identidade atual
Hoje, Vera Cruz reúne história, religiosidade, vida marítima, comunidades tradicionais, festas populares e um forte sentimento de pertencimento.
O grande capítulo político
A emancipação de Vera Cruz
A criação do município não aconteceu de repente. Foi resultado de abandono administrativo, crescimento econômico, articulação comunitária, disputas políticas e lideranças que defenderam uma administração própria.
Por que os moradores queriam autonomia?
Antes de 1962, localidades como Mar Grande, Cacha-Pregos, Jiribatuba, Tairu e outros povoados estavam ligados ao município de Itaparica. Muitos moradores consideravam que os recursos arrecadados não retornavam em serviços suficientes, enquanto as comunidades enfrentavam grandes distâncias, estradas precárias e carência de atendimento público.
Serviços públicos insuficientes
Faltavam escolas em quantidade adequada, postos de saúde, hospitais, energia elétrica e água encanada em diferentes localidades.
Distância da antiga sede
As comunidades estavam espalhadas por um território extenso, e chegar à sede de Itaparica podia exigir viagens demoradas por terra ou pelo mar.
Economia própria
Mar Grande e outros povoados geravam renda com comércio, pesca, agricultura, produção de cal, veraneio e circulação marítima.
Desejo de decidir localmente
Os moradores queriam que impostos, obras e prioridades fossem administrados mais perto de quem vivia os problemas diariamente.
Como o movimento ganhou força
Moradores se reuniam em igrejas, escolas, praças e residências.
Comissões locais discutiam as necessidades dos povoados.
Abaixo-assinados e articulações políticas levaram o tema para além da ilha.
Professores, pescadores, comerciantes, jovens e lideranças religiosas ajudaram a formar uma identidade comum.
A imprensa regional divulgou o debate e ampliou a pressão política.
O que foi analisado
Número de habitantes dos distritos.
Capacidade econômica baseada na pesca, agricultura, comércio e atividades marítimas.
Localização estratégica próxima a Salvador.
Possibilidade de manter uma administração municipal própria.
Organização territorial e escolha de Mar Grande como sede.
Personalidades
Quem participou dessa caminhada?
Os documentos citam moradores, vereadores, deputados e administradores. Alguns abriram caminhos políticos; outros deram forma ao novo município depois da criação.
Liderança políticaJosé Eloy de Carvalho
Conhecido como “Pai de Vera Cruz”, morava no Jaburu e atuou pela municipalização, mantendo articulação com o deputado Manoel Novaes. Também ajudava moradores da região a conseguir trabalho em órgãos públicos.
Conhecido como Pedro Piroca, aparece na revista comemorativa como um dos primeiros a levantar a bandeira pela emancipação e iniciar a mobilização em Mar Grande.
VereadorEdgar Souza Coelho
Ocupava uma cadeira na Câmara de Itaparica e aderiu ao movimento pela autonomia de Vera Cruz, participando das articulações políticas.
ArticuladorTaurino Luiz de Mendonça
Sua residência em Salvador foi citada como local de uma reunião importante entre representantes de Salinas e Vera Cruz para resolver o impasse político.
DeputadoJorge Calmon
Segundo a revista, recebeu a resolução aprovada e encaminhou o processo à Assembleia Legislativa da Bahia.
Primeiro prefeitoAlmiro Antunes de Brito
Foi o primeiro prefeito de Vera Cruz, governando de 1963 a 1967. Coube à sua gestão iniciar a organização administrativa da nova cidade.
Do movimento à lei
Como aconteceu o processo político?
1. Organização comunitária
As localidades reuniram moradores, lideranças e representantes para defender obras, serviços e autonomia.
2. Articulação na Câmara
Vereadores ligados a Mar Grande, Jiribatuba e Cacha-Pregos passaram a defender formalmente a criação do município.
3. Assembleia Legislativa
A resolução seguiu para o Legislativo estadual, onde o processo foi analisado e aprovado.
4. Sanção e instalação
A Lei Estadual nº 1.773 foi sancionada em 30 de julho de 1962. O material escolar registra a instalação oficial em 14 de agosto.
Uma separação que também gerou polêmica
A emancipação não foi aceita por todos. Parte dos moradores e políticos de Itaparica temia a perda de território, arrecadação e influência. O jornal A Tarde chegou a publicar a manchete “Itaparica não aceitará a emancipação de Vera Cruz”. Apesar da resistência, o processo avançou na Câmara Municipal, seguiu para a Assembleia Legislativa da Bahia e resultou na criação oficial do município.
A favor, segundo a revista: Genelício Teles Ferreira, Taurino Luiz de Mendonça, Edgar de Souza Coelho, João Cilindro e Silva, Lívio Garcia Galvão, Júlio Abelardo Conceição e Perolina Gonçalves da Cruz.
Voto contrário citado: Vicente Gonçalves da Silva, identificado na revista como opositor aos interesses da emancipação de Vera Cruz.
Depois da emancipação
O que mudou com o novo município?
Administração própria
Mar Grande tornou-se sede e passou a concentrar a prefeitura, a Câmara e a organização dos serviços municipais.
Primeiras eleições
Em outubro de 1962 ocorreram as primeiras eleições, preparando a posse dos novos dirigentes municipais.
Obras e serviços
As primeiras gestões priorizaram calçamento, escolas, postos de saúde, alfabetização e campanhas de vacinação.
Identidade vera-cruzense
A emancipação fortaleceu o sentimento de pertencimento entre comunidades que passaram a compartilhar uma administração própria.
Nova organização territorial
O município passou a reunir Mar Grande e diversos distritos e povoados, cada qual com sua história e características.
Debate que continua
A divisão da ilha permanece tema de memória e reflexão: para alguns, trouxe desenvolvimento; para outros, fragmentou um território histórico.
Fontes consultadas
Vera Cruz: entre memórias, resistência e identidade, material didático da Escola Municipal Luiz Eduardo Magalhães.
OSÓRIO, Ubaldo. Ilha de Itaparica: história e tradição.
Revista comemorativa Vera Cruz, 37 anos, especialmente as páginas dedicadas à emancipação política.
SULZART, Silvano. Textos sobre a origem do nome de Vera Cruz e os símbolos municipais.
Lei Estadual nº 1.773, de 30 de julho de 1962, referente à criação do município de Vera Cruz.
Lei Orgânica do Município de Vera Cruz, de 29 de outubro de 2008.
Jornal A Tarde, matéria “Itaparica não aceitará a emancipação de Vera Cruz”, publicada em 1962.
Símbolo municipal
A bandeira de Vera Cruz
A bandeira reúne cores e símbolos que expressam a história, a fé e a identidade do município.
Bandeira do Município de Vera Cruz
A bandeira do município é um dos três símbolos municipais, ao lado do brasão e do hino. Ela reúne elementos visuais simples, mas cheios de significado histórico e simbólico.
Cruz de Malta
Representa bravura, força e coragem. Foi colocada na bandeira em homenagem aos portugueses e à tradição histórica ligada às navegações.
Concha amarela
Representa a alimentação e, em sentido simbólico, a fertilidade e o crescimento de uma cidade nascida junto ao mar.
Linhas azuis
Representam o céu e também as profundezas do mar, duas imagens muito presentes na paisagem de Vera Cruz.
Fundo branco
Representa a paz e dá unidade a toda a composição da bandeira.
1Viver na verdade
2Ter fé
3Arrepender-se
4Dar prova de humildade
5Amar a justiça
6Ser misericordioso
7Ser sincero e incondicional
8Suportar a perseguição
Leitura divertida
Vera Cruz em curiosidades
Uma forma leve de revisar a história e fixar as informações principais.
Qual foi o ano da emancipação política de Vera Cruz?
Você sabia?
Vera Cruz é a única cidade brasileira com esse nome que é banhada pelo mar.
A história de Vera Cruz está presente em seus símbolos, nas memórias das comunidades, nos registros históricos e na luta pela emancipação política. Conhecer essa trajetória é reconhecer as pessoas e os acontecimentos que ajudaram a formar o município.